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Técnica de Hall em odontopediatria

Por Carla S. Pereira

O tratamento de lesões cariosas em dentes decíduos especialmente as lesões mais extensas, múltiplas faces comprometidas, nem sempre são fáceis, imagine quando precisa ser feito em crianças não colaboradoras e/ou de pouca idade. Para esses casos, um dos tipos de tratamento que a literatura sugere é a utilização de coroas de aço pré-fabricadas, e ainda, para facilitar o procedimento, utiliza-las com a técnica reconhecida como “Técnica de Hall”, uma vez que essa técnica segue a filosofia de mínima intervenção.

           De uma forma mais direta e direcionada para a prática clínica, vamos relatar neste post alguns pontos específicos de um artigo publicado na IAPD intitulado “Temporomandibular dysfuncion assessment in children treated with the Hall Technique: A pilot study”. O estudo aborda as possíveis (se há ou não) alterações da articulação temporomandibular utilizando a Técnica de Hall.

coroa de aço

O uso de coroa de aço em odontopediatria: vantagens

           De acordo com os autores do estudo, as vantagens de utilizar as coroas em odontopediatria são: tratamento simples, baixo custo, pouco tempo de cadeira, método menos invasivo e não há necessidade de fazer a remoção total do tecido cariado. Os autores relatam que “a técnica de hall é uma abordagem restauradora indicada para dentes decíduos sem pulpite irreversível e sem sinais clínicos/radiográficos de abcesso”. Preste atenção neste detalhe “radiográfico”.

           Portanto, a primeira dica prática que podemos retirar desse artigo é: é necessário fazer radiografia periapical mesmo que o dente não apresente sintomatologia nenhuma para ter certeza do diagnóstico de vitalidade pulpar.  Não podemos esquecer que pode sim haver necrose pulpar sem sintomatologia presente e por isso que a metodologia do estudo incluiu radiografias interproximais e periapicais para todos os dentes selecionados. Além disso, os critérios de inclusão do estudo podem nos direcionar para também selecionar nossos casos no consultório. Os critérios de inclusão foram:

  1. Ausência de doença sistêmica
  2. Sem sintomas de pulpite irreversível os infecção periapical
  3. Reabsorção de no máximo 1/3 de raíz
  4. Lesão dentinária se extendendo radiograficamente até 1/3 médio da dentina

           Já alguns dos critérios de exclusão do artigo, também podem nos direcionar para “não utilizar” as coroas, sendo que os critérios utilizados foram:

  1. Presença de sangramento na sondagem ao redor do dente
  2. Crianças com diagnóstico prévio de disfunção temporomandibular.

Leia também o post: Coroas de aço, diferentes técnicas…Diferentes resultados?

Passo a passo da Técnica de Hall: como fazer

           O passo a passo utilizado no artigo foi exatamente o mesmo preconizado pela técnica original:

  1. Consentimento dos pais
  2. Explicação do procedimento para a criança
  3. Sem anestesia
  4. Escolha do tamanho da coroa (o menor número que encaixasse no dente)
  5. Elástico de separação foi colocado nas interproximais uma noite antes do procedimento
  6. Remoção dos elásticos e da placa bacteriana acumulada
  7. Cimentação da coroa com ionômero de vidro para cimentação e pedindo pra criança morder.

Possíveis alterações na articulação temporomandibular: o que observar

            A colocação da coroa de aço com a técnica de hall, devido a não necessidade do preparo do dente até mesmo a face oclusal, faz com que no primeiro momento após a cimentação da coroa tenha um aumento da dimensão vertical. E o questionamento constante entre os profissionais é se isso afeta a criança devido a possíveis alterações na ATM a longo prazo. Na tentativa de responder essa pergunta, os autores realizaram medições do overbite em 4 momentos distintos: antes do tratamento, imediatamente após a colocação da coroa, 15 dias depois e 1 mês depois do tratamento com a técnica de Hall. 

            Os sintomas foram avaliados através do questionário de acordo com o Guia de orientação da AAPD: “Guideline da AAPD sobre “Desordens Temporomandibulares” revisado em 2019”.

            Os sinais e sintomas avaliados no estudo foram (essa seria mais uma dica para sua pratica clínica caso queria saber se o paciente está tendo algum desconforto ou não):

  1. Dificuldade de abrir a boca
  2. Ouvir sons na articulação
  3. Dor no ouvido ou ao redor dele
  4. Dor ao falar ou mastigar
  5. Dor ao abrir bem a boca
  6. Desconforto ao mastigar ou falar

           Sabe-se que um aumento pequeno da dimensão vertical se torna adaptável ao organismo, uma vez que muitos problemas ortodônticos são necessários realizar este aumento e os pacientes não têm queixa alguma. Uma vez não excedido o limite de 5mm para aumento da dimensão vertical com o uso da coroa, os autores relatam que há adaptabilidade clínica, não havendo problemas para o paciente. Assim, a conclusão do artigo foi que realmente a “Técnica de Hall não tem relação com alguma disfunção temporomandibular, apesar dos autores sugerirem a realização de novos estudos”.

“Por que este artigo é importante para os odontopediatra”.

  • Sinais e sintomas de disfunção temporomandibilar não acontecem significativamente após um ano de tratamento com a técnica de Hall
  • Desconforto de mordida após tratamento com técnica de Hall desaparecem um mês após a colocação da coroa
  • Sinais de disfunção temporomandibular, como limitação de abertura da boca e desvio de mordida não se desenvolveram nos pacientes do estudo.

Esperamos que tenha gostado da leitura e desejamos sucesso nos tratamentos com coroa de aço!

Referência:
Temporomandibular dysfunction assessment in childre treated with the Hall Technique: A pilot study. Int J Paediatr Dent. 2020 Jul;30(4):429-435

Por Carla Pereira.

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