O trauma dentário é uma emergência comum em crianças com dentes decíduos. Mas qual é o real impacto do trauma em um dente decíduo sob o germe do dente permanente? O artigo publicado por Vilela et al em 2019 buscou identificar como a força resultante do trauma em um dente decíduo se dissipa para o germe do dente permanente através de um estudo de elemento finito. Vamos então saber se o trauma no dente decíduo prejudicou o dente permanente!
Trauma no dente decíduo
“Dra, paciente com trauma está vindo para consulta de emergência”!
Neste momento, como odontopediatra, você também tem a preocupação de quanto o germe do dente permanente foi lesionado diante do trauma no dente decíduo, certo?
“apesar de os estudos na literatura não chegarem a conclusão final sobre o assunto, ainda assim sugere-se que o tipo de trauma (severidade) e a idade da criança interferem no o prognóstico. O que o artigo descrito abaixo nos sugere é que o folículo do germe do dente permanente o protege muito bem diante do trauma, sendo que o dano poderia ser “muito pior do que é””.
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Então, no post de hoje vamos conversar um pouco sobre o artigo intitulado: Trauma dental em dentes decíduos em diferentes estágios de reabsorção radicular – Uma análise dinâmica de impacto por elementos finitos do efeito no germe dentário permanente, publicado por Vilela et al em 2019 na Dental Traumatology.
Os autores realizaram uma simulação em computador usando um sistema chamado “elemento finito” simulando 3 situações clínicas em dentes decíduos:
- Dente sem reabsorção: para simular o dente ainda sem risólise;
- Dente com reabsorção no terço médio: para simular um dente na sua fase metade já reabsorvida.
- Dente com reabsorção perto da cervical: dente quase esfoliando.
O estudo com elemento finito simulou uma esfera “batendo” neste dente decíduo simulando um trauma, para saber onde este trauma atingiria o dente permanente.
E chegaram a conclusão que quanto maior a raiz do dente decíduo, consequentemente mais “pra cima” o germe do dente permanente está, no caso dos dentes superiores, e menos formado está o dente permanente (ou seja, mais danos pode ter). Essa força dissipa e fica basicamente no tecido ósseo e no capuz mostrando o papel do folículo na proteção do dente permanente.
Ao avaliar as 3 situações descritas em diferentes graus de formação radicular, a situação em que a força mais se dissipa para o dente permanente é quando se tem pouca raiz, ou seja item 3.
Porém, temos que considerar que esta é uma grande vantagem, visto que nesta situação o dente permanente já está com o esmalte completamente mineralizado (volte no PDF da lâmina 3 e confira). Portanto mesmo que grande quantidade de força se dissipe para o germe, a chance de lesão é menor, visto que o mesmo já está formado (importante considerar o tipo de trauma e sua complexidade).
Resumo do artigo sobre trauma no dente decíduo
Justificativa/Objetivo
O objetivo deste estudo foi determinar a propagação do estresse no germe dentário permanente e nos tecidos e ossos moles circundantes durante o traumatismo dentário nos incisivos centrais primários com três níveis de reabsorção fisiológica das raízes.
Material e métodos
As tensões foram determinadas usando a análise de elementos finitos (FEA). Modelos transversais foram criados usando imagens de tomografia computadorizada de feixe cônico de 3 anos e meio, 5 e 6 anos de idade, representando três estágios fisiológicos diferentes de reabsorção radicular de um incisivo central primário da maxila.
Os modelos incluíram ligamento periodontal, osso e tecidos moles. Um impacto com um bloco de asfalto movendo-se a 1 m/s foi simulado para duas direções de impacto em duas direções, frontal na superfície labial do dente e na borda incisal. Tensões e deformações foram registradas durante o impacto.
Resultados
O impacto causou concentrações de estresse nos ossos e tecidos moles circundantes e no germe dentário permanente, independentemente da direção do impacto e do estágio de reabsorção dentária primária. As tensões de impacto nos folículos dentários e no osso circundante aumentaram nos modelos com maior reabsorção fisiológica das raízes do dente decíduo.
O impacto incisal gerou maiores concentrações de estresse nos ossos e tecidos moles adjacentes e no germe dentário permanente, independentemente do estágio de reabsorção fisiológica da raiz. O incisivo primário sem reabsorção fisiológica radicular apresentou altas concentrações de estresse em seu ápice radicular.
Conclusão
Durante o impacto em um incisivo primário, as tensões mais significativas para possíveis danos à formação de esmalte e dentina permanentes foram no folículo dentário e no tecido ósseo circundante com os três níveis de reabsorção radiológica fisiológica.
E aí, chegou à mesma conclusão que a minha? A minha foi que independente do tipo e gravidade do trauma, nunca poderemos saber exatamente qual foi o dano do germe do dente permanente mas que se ele está presente, ele pode sim ter sido lesionado e por isso devemos acompanhar sempre.
A boa notícia é que este paciente estará comigo em acompanhamento por muitos e muitos anos e que nossa relação de confiança será determinada desde a primeira consulta! Espero que tenha gostado do texto e não esqueça de fazer o curso de Trauma!
Beijos, Carla.
Texto escrito por Carla S. Pereira e artigo sugerido por Mariane Cardoso.
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